Textos - afonsotostes

“Elementos” ou a harmonia da forma imperfeita

Daniela Labra

Um texto sobre a obra de Afonso Tostes poderia assinalar o fato de que o artista é natural de Minas Gerais para justificar as cores terrosas, as formas sinuosas e a presença silenciosa que caracterizam toda sua produção, a qual passa pela escultura, o desenho e a pintura. No entanto, contornar o dado elementar e óbvio da identidade regional do autor, é o primeiro passo para uma reflexão mais aprofundada do trabalho de qualquer artista comprometido com sua prática e pensamento, como Tostes, que integra hoje um conjunto de nomes relevantes no cenário da arte contemporânea brasileira. Sua trajetória começou no final dos anos 1980, no Rio de Janeiro, pelo estudo do suporte bidimensional e planar pictórico, o qual foi posteriormente acompanhado por uma vasta produção escultórica com madeiras encontradas nas ruas, em canteiros de obras e escombros. Interessado em alcançar métodos simples e econômicos no desperdício de material, Tostes iniciou sua investigação com essa madeira descartada, desenvolvendo esculturas aparentemente despojadas de complexidade estrutural e que carregam em seu corpo os sulcos e marcas dos usos anteriores, tal como uma voz própria, que se eleva na categoria de arte. Nesse processo, o artista executou peças como as longilíneas “Escoras” (2005) que se apoiavam na arquitetura, e o conjunto com galhos secos que sugeria uma espécie de floresta, em “Baque Virado” (2011). Os “Elementos” desta mostra individual são, portanto, mais um desdobramento dessa pesquisa com a madeira e podem ser definidos, mesmo sem muita precisão, como objetos-relevos de parede. Embora aponte para uma essencialidade da forma e da matéria, e de certo modo da própria fatura, a escultura e os relevos de Tostes dispensam o rótulo minimalista, posto que o artista não trata de expor a essência ou identidade de um objeto pela eliminação de todas as formas, procedimentos ou conceitos que não lhe sejam fundamentais. Se há um grau de minimalismo nas suas esculturas e nos “Elementos”, este reside basicamente na importância concedida ao material utilizado; Afonso Tostes assume todas as imperfeições e marcas do tempo como estão, sem no entanto, exibi-las como oportunos achados artísticos. De fato, a crueza da madeira velha não é dissimulada, mas é manipulada com cuidado até tornar-se obra cálida, sensual e sofisticada, ainda que aparentemente instável. Se, por um lado, a essencialidade da obra de Tostes não segue exatamente na direção do minimalismo, a rudeza do material e a imprecisão das formas tão pouco se incluem no discurso da estética do precário ou da gambiarra, dois termos-conceitos bastante utilizados nas últimas duas décadas no Brasil, para defender certa identidade nacional refletida na arte recente. Em “Elementos”, o artista aponta relações com totens e objetos mágicos e eróticos da cultura afro-brasileira, mas também os relaciona aos geométricos “objetos ativos” e “pluriobjetos” de Willys de Castro, os quais são igualmente peças de parede, de difícil categorização enquanto esculturas ou obras bidimensionais. Além destas aproximações, os abstratos “Elementos” podem ainda remeter à desordenada forma da escultura cubista, nas quais figuras mostram-se em eterno processo de desmanche, abrindo-se para a harmonia da forma imperfeita em movimento incessante. Afonso Tostes assume seu trabalho como um exercício contínuo e respeitoso, uma vez que compreende a responsabilidade do artista em não ser um mero fazedor de coisas, mas um propositor de experiências sensíveis que devem ser postas no mundo com olhar crítico, mesmo que não se esteja atuando politicamente, nem discutindo na arte a vida como ela é ou poderia ser. 


(ao meu amor) (axé)

Bernardo Mosqueira

Eram mais de cem peças longas de madeira resistente ao tempo e à chuva. Havia décadas, estavam empilhadas no canto de uma fazenda próxima à cidade de Juiz de Fora e seriam compradas pelo dono de uma elegante pousada mineira que as utilizaria para construir as portas e janelas dos novos quartos que construía. As peças que restassem seriam fincadas sobre o solo em frente à entrada da pousada para que as pessoas e os carros pudessem passar sem danificar o gramado. Essas eram as colunas, os baldrames, as travas de segurança e as tábuas do assoalho de um paiol construído há 250 anos na Fazenda Bom Retiro, no atual distrito de Chapéu D’Uvas. Antes de concluir a venda, o dono das madeiras resolveu consultar um de seus primos sobre os detalhes do negócio. Afonso Tostes, o primo, então, comprou, sem ver, o conjun- to completo das madeiras. Tão logo se consolidou a oportunidade para construir esse trabalho, fomos a Minas Gerais ver o material com o qual trabalharíamos. Desembrulhamos as peças de madeira (que estavam envolvidas em grandes retalhos de lonas com propaganda política de eleições passadas) e, sob o sol, os troncos pulsaram impressionantemente. Pareciam respirar, e quase era possível ouvir o som preso, cativo, contido em suas ranhuras. O continente, ali silente, era negro. Percebendo a força contida nos veios da madeira, fomos, aos poucos, aproximando-nos cada vez mais do tronco, até percebermos que estávamos dentro da boca de Zumbi. Entrevistando trabalhadores da fazenda e pesquisadores da história local, descobrimos que o paiol havia sido construído por escravos e que, por eles, foi, durante mais de um século, continuamente preenchido e esvaziado com toneladas de milho. Naquele épa,1 grande parte dos africanos escravizados chegava ao Brasil no Cais do Valongo, a poucos metros de onde hoje é a Casa França-Brasil. Os que trabalhariam nos campos do interior do país, como em Minas Gerais, caminhavam acorrentados até seus destinos. Os que não morreram no caminho morreram depois de serem violentamente explorados. Alguns conseguiram fugir e construir um quilombo que, no fim do século XVI, tornou-se a Colônia São Firmino, que, por sua vez, posteriormente, seria inundada pela construção de uma enorme represa para abastecimento de água da região de Juiz de Fora. Da antiga colônia, só restou a parte mais alta do cemitério: agora uma ilhota com lápides simples no centro do lago da represa.


Na fazenda, precisávamos usar o fogão à lenha e, para isso, eu, que nunca havia tocado em um machado, fui incumbido da função de rachar toras de madeira. Durante três horas, rasguei o ar sobre minha cabeça com o instrumento. Nós e aqueles que nos acompanhavam ficamos impressionados por eu não me cansar, não suar e demonstrar habilidade demais para quem experimentava a ferramenta pela primeira vez.

Ainda decididos a viver a Fazenda Bom Retiro, desejamos comer algo da fazenda e, como não havia frangos, matamos, depenamos e comemos juntos um grande galo branco.

Enquanto caminhávamos, um dos trabalhadores da fazenda se aproximou de nós e nos contou que havia uma onça nos arredores. Ele já tinha ouvido falar da presença desse animal na região, mas nunca na fazenda. O rastro dela circundava a casa onde dormíamos. Era possível ver, na terra marrom, a marca de suas patas.

Sentado à noite em um banco da varanda, questionei Afonso sobre a exposição que ele havia montado nas Cavalariças do Parque Lage no ano de 2002. Tostes, sem se ater aos demais detalhes da mostra, me contou que, na ocasião, colocara fogo em pinturas a óleo sobre algodão dentro de uma gamela de bronze.

No caminho de volta, por cinco minutos, dois grandes gaviões acompanharam nosso carro em cada curva e em cada reta a poucos metros da janela.

Curioso sobre a vida daqueles que construíram o paiol e sobre como isso poderia vir a se relacionar com nossa exposição, compus uma lista de assuntos e questões caras ao povo negro no Brasil a serem pesquisados: desde escravidão, tortura e tráfico negreiro até candomblé, samba e capoeira; desde estudos recentes sobre a vida dos escravos no Brasil no século XIX até as formas de construção histórica dos discursos da mestiçagem; desde o novo Estatuto da Igualdade Racial até as recentes políticas de ação afirmativa. Decidi iniciar as pesquisas com o tópico “Candomblé”.

Logo descobri que o Brasil é considerado por muitos como a nova nação de Xangô pelo fato de os primeiros axés chegados em nosso país terem sido axés de Xangô, e decidi pesquisar sobre esse orixá. Então aconteceu: o símbolo de Xangô é o machado (de dois lados). Xangô come galo branco. O animal de Xangô é o leopardo. Ajerê é o nome da dança ritual em que quem está manifestando Xangô se movimenta com uma gamela de bronze cheia de algodão embebido em óleo queimando sobre a cabeça. Gavião é o animal de Aganju: no Brasil, cultuado como uma das qualidades de Xangô.



Entendemos a mensagem. Xangô é também o dono da coroa, símbolo de ancestralidade. Em uma consulta com Orunmilá, descobrimos que Xangô apontava um caminho para as nossas pesquisas e que estava feliz em ter esta exposição dedicada a ele, a todos os orixás e ao povo negro. Xangô é o orixá do fogo, da vida, e não está onde a morte está. Sua presença tão forte indicava, também, que esta exposição recorda a morte de todos os escravos violentados e executados no Brasil, mas que ela é plena do fogo e da vida necessários às atuais lutas do povo negro em nosso país.


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1 Nas entrevistas com descendentes de escravos em busca de registro de história oral, era frequente ouvir a expressão "naquela épa" significando  "naquela época".